quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O PRIMEIRO MANDAMENTO E A RELIGIÃO






“Adorarás o Senhor teu Deus e só a ele servirás” (Mateus 4,10; cfr. Deuteronômio 6,13;) foi a resposta que Jesus deu ao Diabo que o tentava, dizendo: “Dar-te-ei tudo isto (os reinos do mundo), se, prostrando-te diante de mim, me adorares” (Mateus 4,9).







Só há um Deus e só a Ele devemos adorar. É pela religião que traduzimos em atos nosso culto ao único Deus. Estes são os principais:




adoração: consiste em reconhecer a Deus – por meio de pensamentos, afetos e outras atitudes interiores e exteriores – como nosso Criador, Pai e Salvador, Senhor de tudo o que existe, Amor infinito e misericordioso.




oração: exprime a Deus nosso louvor, nossa ação de graças, nossos pedidos de ajuda e nosso arrependimento pelos pecados;




sacrifício: tem como finalidade expressar a Deus nosso louvor, nossa submissão, nossa humildade, nosso pedido de perdão. O sacrifício perfeito foi o do amor de Cristo na cruz; nossos sacrifícios se unem ao dele para adorar ao Pai;




promessas e votos: são formas diversificadas de nos comprometermos com Deus a realizar esta ou aquela obra de bem.







A religião deve ter também dimensões públicas, pois, além de pertencermos a Deus enquanto pessoas, nós Lhe pertencemos também enquanto comunidade, dado que o ser humano é um ser social.







Aqui convém responder à seguinte questão: por que há tantas religiões diferentes? Serão todas iguais? Tanto faz uma como a outra? Não! As religiões variam porque nem todos têm o mesmo conceito de Deus e do ser humano: variando esse conceito, varia também a religião praticada.







A verdadeira religião foi revelada pelo próprio Deus ao povo de Israel e, em seguida, aperfeiçoada por Jesus. Daqui resulta que todo o seguidor de Cristo tem o dever de ser missionário, isto é, de anunciar o verdadeiro Deus, seu Filho Jesus Cristo e sua Igreja, que continua no mundo a missão de evangelizar.







No trabalho missionário, é preciso sempre respeitar a liberdade de consciência das pessoas. Embora nem todas as religiões sejam “verdadeiras”, ocorre que muitas pessoas, sem culpa própria, ignoram a Palavra de Deus e, portanto, vivem serenamente sua religião, de boa fé.







Todavia, a liberdade religiosa não pode significar desinteresse pelo assunto religioso, pela existência ou não de Deus; particularmente se isso ocorresse porque a pessoa quer “ficar à vontade” e, assim, poder se entregar a quaisquer atitudes sem remorsos de consciência: isso não seria liberdade, seria libertinagem. Pelo contrário, todos têm a obrigação grave de formar a própria consciência, informando-se, na medida do seu possível, a respeito da verdade de Deus, de Cristo e de sua Igreja.







Voltando à questão de um único Deus: se é assim, logicamente não existem outros deuses! Disse Deus a seu povo: “Não terás outros deuses além de mim” (Êxodo 20,3; cf. Deuteronômio 5, 7). Apesar disso, muitos membros do povo escolhido praticaram a idolatria, como hoje também muitos a praticam. A única diferença é que os falsos deuses modernos têm outros nomes: orgulho, poder, egoísmo, sexo, dinheiro...







Adorar outros deuses chama-se “idolatria”. Ela pode ocorrer de diversas formas. É sempre pecado e, portanto, ofensa a Deus. Estas são algumas delas:




idolatria em sentido estrito: consiste em divinizar o que não é Deus, negar o senhorio exclusivo de Deus sobre tudo o que existe e, por consequência, prestar culto a alguma criatura fabricada pelo ser humano ou já existente; também é idolatria dar importância absoluta a certas coisas ou atitudes, como o poder, o dinheiro, a raça, o Estado;




superstição: é o desvio do sentimento religioso e das práticas com que ele se exprime; por exemplo, atribuir forças mágicas a certos ritos e orações por crer que dispõem de eficácia independentemente das disposições interiores;




adivinhação e pela magia ou feitiçaria: a adivinhação consiste em recorrer ao diabo, aos mortos ou a outras criaturas a fim de descobrir o futuro; a magia ou feitiçaria pretende dominar os poderes sobrenaturais para colocá-los ao próprio serviço e conseguir objetivos divinos. Essas práticas revelam falta de confiança em Deus, que disse a seu povo Israel: “Não haja em teu meio... quem consulte adivinhos, ou observe sonhos ou agouros, nem quem use feitiçaria; nem quem recorra à magia, consulte oráculos, interrogue espíritos ou evoque mortos. Pois o Senhor abomina quem se entrega a tais práticas” (Deuteronômio 18,10-12). Estas palavras são também a condenação para certas práticas do espiritismo.




irreligião: é a falta total de respeito para com Deus, pondo-o à prova a fim de conferir seu poder ou sua bondade ou qualquer um de seus atributos: “Não tenteis o Senhor vosso Deus (Deuteronômio 6,16);




sacrilégio: consiste em profanar ou tratar indignamente tudo o que se refere ao culto de Deus, sejam pessoas, coisas ou lugares consagrados, sejam ações litúrgicas, sobretudo sacramentos;




simonia: consiste em vender ou comprar coisas e ações sagradas ou realidades espirituais;




ateísmo: é a atitude de quem nega a Deus ou vive como se ele não existisse e valoriza unicamente as coisas materiais fazendo do ser humano fim em si mesmo;




agnosticismo: afirma a impossibilidade de provar a existência de Deus ou pensar que, mesmo se ele existir, não pode se revelar a nós e nós nada podemos dizer sobre ele.







Uma questão final: falando em ídolos, como fica a questão das imagens? Deus disse ao povo escolhido: “Guardai-vos bem de corromper-vos, fazendo figuras de ídolos de qualquer tipo, imagens de homem ou de mulher, imagens de animais... Nem levanteis os olhos até o céu para ver o sol, a lua, as estrelas com todo o exército do céu, deixando-vos seduzir, adorando-os e prestando-lhes culto” (Deuteronômio 4,16-19).







Com essa ordem, Deus procura evitar que seu povo Israel caia nessa tentação. Portanto, não se trata de proibir fazer imagens em si; a proibição condena fazer imagens com a finalidade de adorá-las como ídolos. Por incrível que pareça, o mesmo Deus mandou fazer algumas imagens! Por exemplo: a serpente de bronze, a Arca da Aliança, os querubins que estavam sobre ela... O próprio Jesus aludiu à serpente de bronze: ao contrário de condená-la, tornou-a símbolo de sua própria elevação sobre a cruz: “Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também será levantado o Filho do Homem, a fim de que todo aquele que nele crer tenha a vida eterna” (João 15,14).







A Igreja sempre aprovou que se fizessem imagens, nunca, porém, a fim de serem adoradas; venerá-las não é nenhum erro ou pecado. As imagens são como símbolos ou “fotografias” que nos ajudam a trazer à memória esta ou aquela pessoa santa que queremos lembrar ou a quem queremos recorrer. Pecado seria adorá-las em sentido estrito, atitude que só a Deus é devida.




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Próxima postagem: dia 6 de março, terça-feira.




sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

PRIMEIRO MANDAMENTO: AMAR A DEUS SOBRE TODAS AS COISAS







Este é de fato o primeiro e grande mandamento válido para todo ser humano: trata-se de amar. Seu sentido fundamental deve ser procurado no Antigo Testamento. As palavras: “Ouve, Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Deuteronômio 6,4) e estas outras: “Eu sou o Senhor, teu Deus” (Êxodo 20,2), são a base e o fundamento da Aliança entre Javé e o povo de Israel. Portanto, o primeiro mandamento quer inculcar, antes e acima de tudo, a existência de um único Deus (Israel vivia rodeado de pagãos que acreditavam em muitos deuses). Essas palavras, ainda hoje, são o fundamento da fé dos seguidores de Moisés e dos seguidores de Cristo, conforme a nossa profissão de fé: “Creio em um só Deus”. Não há outros deuses.




Se Deus é o único Senhor, nós, suas criaturas, filhos e filhas, devemos comportar-nos com Ele, por palavras e atitudes, de forma a reconhecê-lo realmente como nosso Deus e único Deus. Cabe-nos, portanto, antes e acima de tudo, amá-lo e adorá-lo: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Deuteronômio 6,4-5). Jesus retomará ao pé da letra estas palavras (cf. Mateus 22,37; Marcos 12,29-30; Lucas 10,27-28). Portanto, amar a Deus sobre todas as coisas é o nosso primeiro e mais importante gesto de amor para com quem nos criou e é nosso Pai.




Nosso relacionamento amoroso com Deus deve traduzir-se em atitudes práticas. O mandamento: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento” (Mateus 22,37), concretamente, pode ser reduzido a três atitudes:




· crer em Deus (fé);




· esperar em Deus (esperança);




· amar a Deus (caridade).




Estas são as três virtudes teologais, assim chamadas porque nos colocam em contato espiritual imediato com o próprio Deus (“teologais” vem de “Theós” que, em grego, significa “Deus”). São três dons que Ele infunde em nosso coração no momento do batismo. Viver com fé, esperança e caridade é a maneira concreta de nos relacionar com o nosso Deus e cumprir o primeiro mandamento. É bom falar alguma coisa de cada uma.




O que significa viver com fé? A fé consiste em entregar-se a Deus com total confiança e procurar viver de acordo com sua Palavra revelada por Ele nos dois Testamentos (Bíblia) e que a Igreja continua a transmitir. A fé não brota espontaneamente de dentro do ser humano, ela nos é dada por Deus no momento do batismo e se alimenta pela atenção constante à Palavra de Deus. É assim que, no caso de pessoas adultas não batizadas, a fé começa a germinar no coração ao ouvirem a pregação da Palavra de Deus, como ensina São Paulo: “A fé vem pela pregação e a pregação, pela palavra de Cristo” (Romanos 10,17).




Por essa razão, a fé tem forte relação com o intelecto, pois é por meio dele que compreendemos as palavras que ouvimos. Não basta, porém, crer intelectualmente na Palavra de Deus. É preciso procurar viver de acordo com ela, pois a fé é bem mais do que só crença intelectual, a fé é vida! Isto, porém, em nada diminui a importância de acolher intelectualmente as verdades transmitidas pela Igreja. Descuidando a crença intelectual, aos poucos, a fé nos corações também vai se apagando.




Infelizmente, você pode descuidar da fé de diversas maneiras:




pela dúvida, que consiste na dificuldade em crer ou na recusa explícita a crer; se não houver esforço para superar essa dificuldade, pode-se chegar a perder fé;




pela incredulidade, que é o desinteresse total por tudo o que Deus revelou. A incredulidade pode levar à heresia (negação explícita de alguma verdade revelada), à apostasia (rejeição total da fé cristã) e ao cisma (recusa da comunhão com os membros da Igreja e seus pastores, o papa e os bispos).




Essas atitudes são contrárias à fé e violam o primeiro mandamento; por elas, recusa-se obediência a Deus que nos revelou a Verdade.




O que significa viver com esperança? A esperança nos faz aguardar com confiança os bens que Deus em seu amor nos prometeu, em particular, a felicidade eterna. Não ter esperança significa desconfiar de Deus, que poderia mentir e nos enganar... Peca-se contra a esperança:




pelo desespero, que leva o ser humano a não aguardar mais nada da parte de Deus, como se Deus não se interessasse por nós ou não fosse justo;




pela presunção, que consiste na atitude contrária, isto é, em alguém pensar que pode salvar-se sozinho, ou então, em pretender de Deus o perdão sem esforço de conversão e sem méritos.




O que significa viver com caridade? Ao amor de Deus por nós devemos responder com sincero amor, amor que supere todo o amor a qualquer criatura, sem outros interesses de nossa parte. Afinal ele é nosso Deus e Pai. Pecamos contra o amor a Deus:




pela indiferença, que consiste no desprezo do amor de Deus por nós, no desinteresse por Deus e por suas iniciativas em nosso favor;




pela ingratidão, pois por ela não reconhecemos quanto Deus nos ama e não respondemos a seu amor com nosso amor;




pela frieza (tibieza), atitude que nos leva a ser negligentes em amar o nosso Pai celeste;




pelo ódio a Deus, que consiste em aborrecer nosso Criador e Pai, negar sua bondade e até mesmo maldizê-lo por “atrapalhar” nossas más inclinações e ameaçar-nos com “castigos”.




Se amar a Deus sobre todas as coisas é o maior mandamento, não amá-lo sobre todas as coisas é o maior pecado.




Aí está como amar a Deus de acordo com o Primeiro Mandamento. Há ainda outras atitudes a assumir, mas isso fica para a próxima postagem.




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Próxima postagem: dia 29 de fevereiro, quarta-feira.




sábado, 18 de fevereiro de 2012

OS MANDAMENTOS E O EVANGELHO








Antes de começar a tratar de cada um dos Dez Mandamentos, gostaria de dizer algumas palavras sobre duas questões: diferença existe entre os Mandamentos e o Evangelho? Por que os Mandamentos são dez?





Em primeiro lugar, deve-se dizer que o Evangelho é a continuação e o aperfeiçoamento dos Mandamentos. O próprio Jesus disse: “Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para cumprir” (Mateus 5,17).





A Carta aos Hebreus ensina: “Muitas vezes e de muitos modos, Deus falou outrora aos nossos pais, pelos profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por meio do Filho” (Hebreus 1,1-2). Portanto, deve-se compreender que o Filho de Deus, Jesus de Nazaré, é a perfeição da revelação do Antigo Testamento. Não há como optar pelos Mandamentos e rejeitar o Evangelho ou vice-versa; pelo contrário, no Evangelho encontramos aperfeiçoados todos os Mandamentos de Deus.





Aqui conviria ler por inteiro o Sermão da Montanha (cf. Mateus 5-7). A abertura é solene: Jesus proclama as Bem-aventuranças. Elas são a fina-flor da perfeição evangélica. A perfeição do Novo Testamento é mais exigente que a do Antigo. Por isso, para se fazer entender adequadamente a respeito de alguns pontos, Jesus diz: “Ouvistes o que foi dito aos antigos: ‘Não matarás’ [...] ‘Não cometerás adultério’ [...] ‘Quem despedir sua mulher dê-lhe um atestado de divórcio’ [...] ‘Não jurarás falso’ [...] ‘Olho por olho, dente por dente’ [...] ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’”... A todos estes mandamentos, digamos, à “moda do Antigo Testamento”, Jesus contrapõe os mandamentos à “moda do Evangelho”, com estas palavras: “Eu, porém, vos digo”.... Dessa forma, Ele corrige e aperfeiçoa as limitações dos Dez Mandamentos da Antiga Aliança.





Além de aperfeiçoar os Mandamentos de Deus, Jesus os sintetizou em poucas palavras que os resumem a todos. Um fariseu lhe perguntou: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?” Ele respondeu: ‘Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento!’ Esse é o maior e o primeiro mandamento. Ora, o segundo lhe é semelhante: ‘Amarás teu próximo como a ti mesmo’. Toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos” (Mateus 22,36-40). Usando palavras semelhantes, Jesus os condensou dessa forma: “Tudo quanto desejais que os outros vos façam, fazei-o, vós também, a eles. Isto é a Lei e os Profetas.” (Mateus 7,12). Por sua vez, São Paulo ensina que “o amor não faz nenhum mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento perfeito da Lei” (Romanos 13,10).





Foi este o mandamento antigo que Jesus na última ceia chamou de mandamento novo e que nos deixou como sua suprema vontade: “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (João 13,34). Este é o coração da perfeição do Evangelho!





De tudo isto tira-se a seguinte conclusão: quem quiser buscar a perfeição proposta por Jesus não pode limitar-se ao cumprimento do mínimo dos mínimos. Os fariseus e escribas é que mediam até onde podiam chegar sem cometer pecado... Jesus advertiu seus discípulos contra esse perigo: “Eu vos digo: se a vossa justiça não for maior que a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no Reino dos céus” (Mateus 5,20).





Jesus nos convida ao máximo possível: “Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mateus 5,48). Não basta evitar o pecado, não basta ser bom, é preciso esforçar-se para ser sempre melhor. Evidentemente, para isso, precisamos da ajuda do Senhor, como ele mesmo afirmou: “Sem mim, nada podeis fazer” (João 15,5).





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E agora encaremos a segunda questão: por que os Mandamentos são dez?





Os Mandamentos, chamados também de Decálogo – o que significa “Dez Palavras” – como vimos, exprimem a vontade de Deus para seu povo Israel. A Bíblia apresenta duas redações dos Mandamentos: a do Livro do Êxodo, mais longa (cf. Êxodo 20,2-17) e a do Livro do Deuteronômio, mais breve (cf. Deuteronômio 5,6-21). Para fins de catequese e fácil memorização, a Igreja os sintetizou em Dez:





Amar a Deus sobre todas as coisas





Não tomar seu santo nome em vão





Guardar domingos e festas de guarda





Honrar pai e mãe





Não matar





Não pecar contra a castidade





Não furtar





Não levantar falso testemunho





Não desejar a mulher do próximo





Não cobiçar as coisas alheias









A Bíblia nos relata a forma como Deus entregou a Moisés os Dez Mandamentos. “O Senhor disse a Moisés: ‘Sobe para junto de mim no monte e fica ali. Eu quero dar-te as tábuas de pedra, a Lei e os mandamentos que escrevi para que instruas o povo´” (Êxodo 24,12). São as famosas Tábuas da Lei. Numa constavam os três primeiros mandamentos, que se referem ao amor a Deus; na outra, os demais sete, referentes ao amor do próximo.









É importante também compreender qual era o sentido dos Dez Mandamentos no Antigo Testamento. Ao libertar o povo de Israel do Egito, Deus o conduziu ao deserto e ali lhe propôs uma Aliança. O intermediário foi Moisés. Após seu encontro com Deus no alto do monte Sinai, “Moisés foi transmitir ao povo todas as palavras e os decretos do Senhor” (Êxodo 24,3). O povo se comprometeu a cumprir os Mandamentos de Deus.









Em seguida, a Aliança foi concluída com a celebração de holocaustos e sacrifícios. Moisés “tomou o livro da Aliança e o leu em voz alta ao povo, que respondeu: ‘Faremos tudo o que o Senhor falou e obedeceremos’. Moisés pegou, então, o sangue, aspergiu com ele o povo e disse: ‘Este é o sangue da Aliança que o Senhor fez convosco’” (Êxodo 24,7-8). A essência da Aliança era esta: o povo reconheceria Javé como seu único Deus e o adoraria como tal (portanto não reconheceria a existência de outros deuses e não adoraria seus ídolos), e Deus faria de Israel o seu povo escolhido, o amaria com predileção, protegeria, defenderia, caminharia com ele em todo tempo e lugar (cf. Êxodo 19-24).





Isto tudo continua valendo também para nós, pois a vontade de Deus passou pela mente, pelo coração e pelos lábios de Jesus, o novo Moisés. Por isso, somos convidados a assumirmos o compromisso de cumprir integralmente os Dez Mandamentos como expressão da vontade do nosso Pai que nos falou em seu Filho Jesus. Eles são o único código da Aliança e providenciam o bem total do ser humano. Diz São Tiago: “Quem pretende observar a Lei inteira, mas comete transgressão num só ponto, torna-se culpado contra toda a Lei” (Tiago 2,10). De fato, o mesmo Deus que mandou um mandamento, mandou também os outros, e o bem do ser humano que os Mandamentos promovem, não seria totalmente bem se faltasse uma parte dele.





O Catecismo da Igreja Católica ensina: “Visto que exprimem os deveres fundamentais do homem para com Deus e para com o próximo, os Dez Mandamentos revelam, em seu conteúdo primordial, obrigações graves. São essencialmente imutáveis e sua obrigação vale sempre e em toda parte. Ninguém pode dispensar-se deles. Os Dez Mandamentos estão gravados por Deus no coração do ser humano” (CIC n. 2072).





Disto dá testemunho São Paulo escrevendo aos Romanos. “Quando os pagãos, embora não tenham a Lei, cumprem o que a Lei prescreve, guiados pelo bom senso natural, esses que não têm a Lei tornam-se Lei para si mesmos. Por sua maneira de proceder, mostram que a Lei está inscrita em seus corações: disso dão testemunho igualmente sua consciência e os juízos éticos de acusação ou de defesa que fazem uns dos outros” (Romanos 2,14-16). Dessa forma, nem mesmo os pagãos podem desculpar-se totalmente pelo mal que cometem, pois a consciência deles os adverte e repreende quando o praticam.





Encerrando, rezemos com a Bíblia: Senhor, “de todo o coração eu vos procuro; não permitais que eu me aparte de vossos mandamentos. Guardo no fundo do meu coração a vossa palavra, para não vos ofender. Sede bendito, Senhor, ensinai-me vossas leis... Hei de deleitar-me em vossas leis, e jamais esquecerei vossas palavras” (Salmo 118,9-12.16).





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Próxima postagem: dia 24 de fevereiro, sexta-feira.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

OS MANDAMENTOS, DOM DE DEUS PARA A NOSSA FRAQUEZA






Os Dez Mandamentos não foram dados por Deus pelo gosto de mandar. Se os seres humanos, criados para o bem, não tivessem, desde o início, praticado o mal – e ainda hoje o praticam! –, não haveria necessidade haveria de mandamentos: o que se faz por amor não precisa ser mandado. Quando, porém, o amor falha “por dentro”, o ser humano precisa de ajuda “vinda de fora a fim de ser fiel ao Criador.




Em sua misericórdia, Deus nos proporciona essa ajuda por meio dos mandamentos: “O mandamento é uma lâmpada, e a lei, uma luz” (Provérbios 6,23); com sua luz, Ele ilumina o caminho da Vida. Compreenda, então, que os mandamentos, longe de ser um ato ditatorial, são a mão amorosa que o Pai lhe estende para conduzi-lo pelo caminho do bem (lembre a imagem de Jesus estendendo a mão a Pedro que afunda nas águas: Mateus 14,31).




Deus, Sumo Bem, não pode querer o mal; por isso, nos criou bons e para o bem. Criados bons, à imagem e semelhança do Criador (cf. Gênesis 1,26.27), Ele é em si mesmo nosso último e supremo Bem; em consequência, também nos quer fazedores do bem.




Se feitos para o bem, por que às vezes optamos pelo mal? Eis o grande mistério e o grande problema do ser humano: a liberdade. A liberdade é o maior dom que Deus nos deu; por ela, nos conduzimos a nós mesmos segundo nossas próprias opções, ao invés de sermos manipulados como bonecos. Nossa liberdade, porém, é uma liberdade criada, portanto, limitada. Só a de Deus é infinita e perfeita; sendo perfeita, não pode escolher o mal; ao passo que a nossa pode se enganar e optar também pelo mal.




Mesmo assim, Deus julgou ser mais nobre – para Ele e para nós – correr o risco de nos ver abusando da liberdade, sendo livres, do que o de nunca errarmos, não passando de marionetes. Na liberdade está a grandeza do ser humano: ela nos torna semelhantes a Deus.




A liberdade (verdadeira) é a capacidade para escolher o caminho mais adequado na busca do bem. Portanto, não faz parte de sua definição, a possibilidade de escolher o mal. A escolha do mal resulta da nossa fraqueza e ignorância, ou então de refinada malícia, o que, nesse caso, cheira a diabólico... Como consequência, quanto mais optarmos pelo mal, menos livres seremos; quanto mais optarmos pelo bem, mais livres seremos e mais semelhantes a Deus.




Diz São Paulo: “É para a liberdade que Cristo nos libertou... Fostes chamados para a liberdade. Porém, não façais da liberdade um pretexto para servirdes à carne” (Gálatas 5,1.13): por “carne” se entende tudo o que não é Deus, mais ainda quando se opõe a Deus. E São Pedro: “Conduzi-vos como pessoas livres, mas sem usar a liberdade como pretexto para o mal. Pelo contrário, sede servos de Deus” (1 Pedro 2,16). Ainda São Paulo: “Onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade” (2 Coríntios 3,17). Portanto, somos verdadeiramente livres na medida em que vivermos conforme o Espírito, não conforme a carne: quanto mais servos de Deus, mais livres!




O abuso da liberdade é a conhecida história do primeiro pecado (cf. Gênesis 2-3). Nela ficam claras duas coisas: o pecado foi fruto do abuso da liberdade; por sua vez, o abuso da liberdade resultou da fragilidade, não da malícia humana: a malícia e a astúcia vieram do diabo, que disse a Adão e Eva: “Deus sabe que, no dia em que comerdes do fruto da árvore, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus” (Gênesis 3,5).




Pretender ser como Deus é o avesso do servir a Deus. Ora, recusar a servir a Deus não é tornar-se livre, é tornar-se escravo. Foi, pois, por um abuso da liberdade que o mal começou no mundo. O primeiro abuso foi também o primeiro elo de uma cadeia de abusos que jamais cessaram. Na Missa, depois do Pai-Nosso, o celebrante pede a Deus que sejamos “livres do pecado”. Ser libertados do pecado significa ser libertados de usar mal da liberdade. De fato, a liberdade precisa ser libertada da possibilidade de optar pelo mal.




O pecado, portanto, consiste no abuso da liberdade humana. A maioria dos pecados, porém, ocorre mais por fraqueza do que por malícia. Se for por fraqueza, a responsabilidade da pessoa varia conforme a consciência mais ou menos clara que ela tem do mal praticado. Quando é por malícia, a decisão de fazer o mal é consciente, então a gravidade é muito maior.




Além disso, a gravidade do pecado depende também da maior ou menor gravidade da ação má que a pessoa pratica. De qualquer forma, o pecado – pequeno ou grande – é sempre abuso da liberdade.




Eis a razão pela qual temos a obrigação de formar a consciência para que ela use bem da liberdade. A Palavra de Deus, a oração, a prática dos Mandamentos e dos preceitos do Evangelho, os sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia, o aconselhamento com pessoas prudentes... são meios para isso. Evitar formar a consciência, para ficar à vontade e fazer tudo quanto passa pela cabeça, é grave erro e ofensa a Deus.




Se você não zelar para que a sua consciência seja reta, com o tempo, não saberá mais distinguir entre o bem e o mal, acabará perdendo a noção de Deus e vivendo como se Deus não existisse: de fato, o pecado tem sempre como ponto de referência o próprio Deus. Perder a consciência é a pior desgraça que pode lhe pode acontecer.




Você pode perguntar: o que tem a ver tudo isso com os Dez Mandamentos? É que se usássemos sempre bem da liberdade, agindo só por amor, não haveria necessidade de mandamentos; eles são como “muletas” que nos ajudam a caminhar pelos caminhos do Evangelho, e isso é realmente um grande dom de Deus.




Dada a nossa fragilidade, é difícil agir sempre só por amor. Entretanto, mesmo agindo por obediência aos Mandamentos, Deus leva em conta o nosso empenho, pois Ele sabe que não conseguimos agir sempre amorosamente e precisamos continuamente de sua ajuda. De fato, Jesus disse: “Sem mim, nada podeis fazer” (João 15,5). Na Liturgia há uma oração que reza assim: “Ó Deus..., como nada podemos em nossa fraqueza, dai-nos sempre o socorro da vossa graça, para que possamos querer e agir conforme vossa vontade, seguindo os vossos mandamentos”. No Pai Nosso nós pedimos a força para sempre cumprir a sua santa vontade. Que assim seja!


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Próxima postagem: dia 18 de fevereiro, sábado.




segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

OS MANDAMENTOS DA LEI DE DEUS


A partir de hoje vou propor neste Blog – de forma sistemática – uma catequese sobre os Mandamentos da Lei de Deus. Penso que está na hora de refrescar a memória dos nossos cristãos, em particular, dos nossos católicos sobre esse assunto. Afinal, trata-se de sermos coerentes com o Batismo que fez de nós filhos/as de Deus e de vivermos concretamente a nossa fé. Que tipo de filhos somos, se ignorarmos e – pior – se não praticarmos a vontade do nosso Pai expressa nos seus Mandamentos?
Muitos são os que se dizem cristãos, todavia, muitos também são os que esqueceram os Mandamentos de Deus ou por eles pouco se interessam. Há mesmo quem viva como se Deus não existisse.
Aumenta assustadoramente o número das nossas leis simplesmente porque não se observam as dez Leis que Deus nos deu, condensadas em duas por Jesus e, por fim, numa só: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Tudo se resume no amor. Nos Mandamentos estão em jogo três amores que, na verdade, são um só: o amor de Deus por nós, o nosso amor a Deus e o nosso amor aos irmãos.
Expulsemos, pois, da mente e do coração o temor de que os Mandamentos são normas impostas por um Deus voluntarioso e dominador. Pelo contrário, compreendamos que tudo se reduz ao amor. Diz São João: “Amar consiste no seguinte: em viver conforme os mandamentos de Deus” (2 João 6). E explicita: “No amor não há temor. Ao contrário, o perfeito amor lança fora o temor, pois o temor implica castigo, e aquele que teme não chegou á perfeição do amor. Nós amamos porque Deus nos amou primeiro... E este é o mandamento que dele recebemos: quem ama a Deus, ame também seu irmão” (1 João 4,18-19.21). Jesus, por sua vez, nos interpela: “Vós sois meus amigos, se fizerdes o que vos mando” (João 15,14).
Estas palavras contêm todo o espírito com que devemos conhecer, amar e praticar os Mandamentos. É para fortalecer a nossa vontade que Deus nos faz conhecer a sua vontade: sua Lei é para nós um dom. Ela nos estimula a retribuir seu amor de Pai com nosso amor de filhos e filhas e a amar a todos como nossos irmãos e irmãs.Console-nos a palavra do Espírito Santo por boca do salmista: “Quem ama a tua lei tem muita paz, no seu caminho não há tropeço! Espero tua salvação, Senhor, e pratico os teus mandamentos.” (Salmo 118,165-166).
Disse o Papa Bento XVI: “Os Mandamentos, se são vistos em profundidade, são o meio que o Senhor nos dá para defender nossa liberdade tanto dos condicionamentos internos das paixões como dos abusos externos dos mal intencionados. Os «não» dos mandamentos são outros tantos «sim» ao crescimento de uma autêntica liberdade”.
O Papa disse também: “O homem moderno não compreende os Mandamentos; toma-os por proibições arbitrárias de Deus, por limites postos à sua liberdade. Mas os Mandamentos de Deus são uma manifestação de seu amor e de sua solicitude paterna pelo homem. «Cuida de praticar o que te fará feliz” (Deuteronômio 6,3; 30,15s): este, e não outro, é o objetivo dos mandamentos”.
Seja de Jesus a última palavra: “Quem acolhe e observa os meus Mandamentos, esse me ama. Ora, quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (João 14,21).Não poderia haver recompensa maior para quem procura ser fiel à vontade de Deus.
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Próxima postagem: dia 12 de fevereiro, domingo.