
Em sua misericórdia, Deus nos proporciona essa ajuda por meio dos mandamentos: “O mandamento é uma lâmpada, e a lei, uma luz” (Provérbios 6,23); com sua luz, Ele ilumina o caminho da Vida. Compreenda, então, que os mandamentos, longe de ser um ato ditatorial, são a mão amorosa que o Pai lhe estende para conduzi-lo pelo caminho do bem (lembre a imagem de Jesus estendendo a mão a Pedro que afunda nas águas: Mateus 14,31).
Deus, Sumo Bem, não pode querer o mal; por isso, nos criou bons e para o bem. Criados bons, à imagem e semelhança do Criador (cf. Gênesis 1,26.27), Ele é em si mesmo nosso último e supremo Bem; em consequência, também nos quer fazedores do bem.
Se feitos para o bem, por que às vezes optamos pelo mal? Eis o grande mistério e o grande problema do ser humano: a liberdade. A liberdade é o maior dom que Deus nos deu; por ela, nos conduzimos a nós mesmos segundo nossas próprias opções, ao invés de sermos manipulados como bonecos. Nossa liberdade, porém, é uma liberdade criada, portanto, limitada. Só a de Deus é infinita e perfeita; sendo perfeita, não pode escolher o mal; ao passo que a nossa pode se enganar e optar também pelo mal.
Mesmo assim, Deus julgou ser mais nobre – para Ele e para nós – correr o risco de nos ver abusando da liberdade, sendo livres, do que o de nunca errarmos, não passando de marionetes. Na liberdade está a grandeza do ser humano: ela nos torna semelhantes a Deus.
A liberdade (verdadeira) é a capacidade para escolher o caminho mais adequado na busca do bem. Portanto, não faz parte de sua definição, a possibilidade de escolher o mal. A escolha do mal resulta da nossa fraqueza e ignorância, ou então de refinada malícia, o que, nesse caso, cheira a diabólico... Como consequência, quanto mais optarmos pelo mal, menos livres seremos; quanto mais optarmos pelo bem, mais livres seremos e mais semelhantes a Deus.
Diz São Paulo: “É para a liberdade que Cristo nos libertou... Fostes chamados para a liberdade. Porém, não façais da liberdade um pretexto para servirdes à carne” (Gálatas 5,1.13): por “carne” se entende tudo o que não é Deus, mais ainda quando se opõe a Deus. E São Pedro: “Conduzi-vos como pessoas livres, mas sem usar a liberdade como pretexto para o mal. Pelo contrário, sede servos de Deus” (1 Pedro 2,16). Ainda São Paulo: “Onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade” (2 Coríntios 3,17). Portanto, somos verdadeiramente livres na medida em que vivermos conforme o Espírito, não conforme a carne: quanto mais servos de Deus, mais livres!
O abuso da liberdade é a conhecida história do primeiro pecado (cf. Gênesis 2-3). Nela ficam claras duas coisas: o pecado foi fruto do abuso da liberdade; por sua vez, o abuso da liberdade resultou da fragilidade, não da malícia humana: a malícia e a astúcia vieram do diabo, que disse a Adão e Eva: “Deus sabe que, no dia em que comerdes do fruto da árvore, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus” (Gênesis 3,5).
Pretender ser como Deus é o avesso do servir a Deus. Ora, recusar a servir a Deus não é tornar-se livre, é tornar-se escravo. Foi, pois, por um abuso da liberdade que o mal começou no mundo. O primeiro abuso foi também o primeiro elo de uma cadeia de abusos que jamais cessaram. Na Missa, depois do Pai-Nosso, o celebrante pede a Deus que sejamos “livres do pecado”. Ser libertados do pecado significa ser libertados de usar mal da liberdade. De fato, a liberdade precisa ser libertada da possibilidade de optar pelo mal.
O pecado, portanto, consiste no abuso da liberdade humana. A maioria dos pecados, porém, ocorre mais por fraqueza do que por malícia. Se for por fraqueza, a responsabilidade da pessoa varia conforme a consciência mais ou menos clara que ela tem do mal praticado. Quando é por malícia, a decisão de fazer o mal é consciente, então a gravidade é muito maior.
Além disso, a gravidade do pecado depende também da maior ou menor gravidade da ação má que a pessoa pratica. De qualquer forma, o pecado – pequeno ou grande – é sempre abuso da liberdade.
Eis a razão pela qual temos a obrigação de formar a consciência para que ela use bem da liberdade. A Palavra de Deus, a oração, a prática dos Mandamentos e dos preceitos do Evangelho, os sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia, o aconselhamento com pessoas prudentes... são meios para isso. Evitar formar a consciência, para ficar à vontade e fazer tudo quanto passa pela cabeça, é grave erro e ofensa a Deus.
Se você não zelar para que a sua consciência seja reta, com o tempo, não saberá mais distinguir entre o bem e o mal, acabará perdendo a noção de Deus e vivendo como se Deus não existisse: de fato, o pecado tem sempre como ponto de referência o próprio Deus. Perder a consciência é a pior desgraça que pode lhe pode acontecer.
Você pode perguntar: o que tem a ver tudo isso com os Dez Mandamentos? É que se usássemos sempre bem da liberdade, agindo só por amor, não haveria necessidade de mandamentos; eles são como “muletas” que nos ajudam a caminhar pelos caminhos do Evangelho, e isso é realmente um grande dom de Deus.
Dada a nossa fragilidade, é difícil agir sempre só por amor. Entretanto, mesmo agindo por obediência aos Mandamentos, Deus leva em conta o nosso empenho, pois Ele sabe que não conseguimos agir sempre amorosamente e precisamos continuamente de sua ajuda. De fato, Jesus disse: “Sem mim, nada podeis fazer” (João 15,5). Na Liturgia há uma oração que reza assim: “Ó Deus..., como nada podemos em nossa fraqueza, dai-nos sempre o socorro da vossa graça, para que possamos querer e agir conforme vossa vontade, seguindo os vossos mandamentos”. No Pai Nosso nós pedimos a força para sempre cumprir a sua santa vontade. Que assim seja!
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Próxima postagem: dia 18 de fevereiro, sábado.
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