terça-feira, 29 de dezembro de 2009

ANO NOVO COM MARIA

Meia noite em ponto! Feliz ano novo!
Abraços, beijos, champanhe, fogos de artifício... tudo é festa: chegou o 1º de janeiro de 2010!
Ano Novo, esperanças, desejos, votos de felicidade, planos...
É assim mesmo: o tempo se renova, as pessoas se refazem, muitos querem recomeçar a vida, outros querem mudá-la para melhor, enfim, o ser humano está sempre em ebulição, deseja caminhar, subir, superar obstáculos...
Será bom também pensar na famosa frase de S. Agostinho: “Senhor, o nosso coração foi feito para ti e está sempre inquieto enquanto não repousar em ti” (Livro das Confissões).
Afinal, os tempos e a história estão nas mãos de Deus.
Como diz o provérbio: “O homem se agita, Deus o conduz”.
Por baixo da teia das relações humanas e dos acontecimentos de todo tipo estão os dedos de Deus que, lenta, mas firmemente, vão tecendo o grande painel do final de tudo: a felicidade!
Então, comecemos bem o Ano Novo.
Entremos pela porta da frente e vamos ao encontro de Quem nos pode fazer felizes.
Que porta é essa?
É Maria, a Mãe de Jesus.
A Igreja, no primeiro dia do ano, não quer que nos sintamos sozinhos celebrando a grande festa; quer que nossa Mãe participe da alegria geral.
Por isso, na liturgia, celebramos a solenidade da Santa Mãe de Deus, Aquela que, no Natal, passou, de seus braços aos nossos, seu Filho Jesus.
Maria é a porta do Ano Novo.
Ela nos acolhe em sua casa e nos leva ao encontro do Senhor da Felicidade, Jesus.
Celebre o Ano Novo com Maria.
Seu coração não ficará feliz só com festas, luzes, barulho, comes e bebes...
Terminada a celebração, você sentirá a boca amarga, o coração vazio...
Com Maria, é diferente!
Ela, como em Caná, providenciará o vinho bom da alegria.
Na festa de Maria, estará presente seu Filho Jesus, seus discípulos e discípulas.
Haverá a partilha do “pão divino” e do “vinho celeste”.
Se você não faltar à festa, verá que seu rosto vai brilhar, seu coração vai se dilatar, seu sorriso será mais bonito e sincero.
Você, então, poderá dizer: comecei bem o ano!
Quero caminhar de mãos dadas com Maria, em companhia de seu Filho.
Quero olhar todos os dias para Ela, aprender a ser como Ela, que vivia de olhos atentos aos sinais de Deus e dos irmãos, de mãos abertas, sempre pronta para ajudar.
O ano novo, como uma criancinha, precisa ser ajudado a dar os primeiros passos, depois a se firmar, depois...
As mães sabem fazer isso muito bem; a Mãe de Jesus também.
Entregue seu ano novo a Ela, deixe-se guiar e sustentar por Ela, verá que será um ano muito bom, como uma árvore, carregado de frutos.
Chegando ao fim, você estará contente.
Por isso, FELIZ ANO NOVO, mas sempre caminhando com Maria.
Sendo assim, Maria não é somente a “porta” do ano novo, será também a “porta” de cada dia do ano novo.
Isso é muito bom, pois, se Maria caminha conosco, é certo que estaremos caminhando pelo Caminho que é Jesus.
Quando estive em Lourdes, no ano passado, com um grupo de Salesianos do Brasil (depois de visitar Roma e os “lugares santos” salesianos em Turim), tive a sensação de me encontrar junto à porta do céu.
Em Lourdes toca-se com as mãos a presença de Maria.
Ali, tudo parece levar a gente para o alto.
Aliás, em Lourdes, Nossa Senhora tem duas imagens muito significativas: a imagem da gruta onde Ela apareceu olha para baixo, para a humanidade sofredora e pecadora; a imagem da praça, sobre uma coluna, tem o olhar levantado para o céu.
O primeiro olhar nos conforta, o segundo nos enche de esperança e alegria.
São esses olhares de Maria que devem ser nossos também durante todo o ano novo que se inicia.
Ela nos convida a olhar para os nossos irmãos/as para socorrê-los em suas penas e, ao mesmo tempo, olhar para o céu, donde jorra sobre nós uma torrente de esperança e de alegria.
Maria nos convida a caminhar de cabeça erguida.
Vamos então começar o ano novo com Maria, dizendo-lhe assim:
Ó Maria, porta do céu, porta do ano novo, porta da minha vida!
Leva-me a caminhar contigo pelo Caminho que é teu Filho Jesus.
Segura-me pela mão, para que eu não me desvie da rota segura.
Mostra-me os perigos e dá-me coragem e força para superá-los.
Ensina-me o Evangelho da Palavra e do Serviço aos irmãos.
Cumpre para comigo tua missão de Mãe que aceitaste junto à cruz.
E quando chegar a minha hora, ó “Porta do Céu”, leva-me contigo ao paraíso. Amém.
FELIZ ANO NOVO!
*****
Próxima postagem: dia 6/1, quarta-feira
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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O NATAL É JESUS!

Basta ouvir a palavra “Natal” que ela explode em nossa fantasia como um fogo de artifício e enche o coração de luzes, cores, músicas, lembranças, saudades.
As cidades, as vilas, as casas revestem-se de luz e beleza; os cantos e as melodias difundem-se no ar como um perfume; enfim, parece que a felicidade voltou a morar conosco.
Será mesmo assim?
Não para todos.
Do outro lado da vida há uma multidão de gente que continua a comer o pão que o diabo amassou.
Sem pão, sem casa, sem trabalho, sem família, sem liberdade... a ladainha dos “sem” poderia continuar longamente.
É a procissão da miséria humana que desfila triste e pesadamente, ironicamente colorida pelas luzes de Natal.
Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.
É justo alegrar-se com a “festa” que sempre é o Natal.
É também justo – dever de justiça! – preocupar-se com quem foi excluído da festa.
Porque “verdadeiro” Natal não é o das lojas enfeitadas, dos papais-noéis dependurados nas sacadas ou nos postes de luz, das mesas recheadas de quitutes saborosos.
Tudo muito justo, muito lícito, mas...
O verdadeiro Natal é JESUS!
Sim, Ele mesmo, o Filho de Deus feito filho de Maria, a criancinha de Belém, que os anjos saudaram com seus cânticos, os pastores contemplaram, os magos adoraram.
Jesus é a grande Luz que, como divino fogo de artifício, explode em nosso coração.
Então, sim, é Natal.
Então, tudo se ilumina, tudo brilha, tudo canta de alegria.
Um coração iluminado por Jesus vê o mundo como ele realmente é.
Escondido pelas lampadinhas coloridas ou exposto ao desconsolo das ruas e das praças, por trás de todo ser humano, há sempre um irmão, uma irmã que precisam de Luz, de Paz, de Pão, de Felicidade, de Perdão.
Jesus veio para transformar os corações.
Será Natal em mim, na medida em que meu coração se deixar iluminar pela Luz do Filho de Maria.
Por isso, o Natal é Jesus!
Seja feliz neste Natal.
Acolha Jesus em seu coração! Celebre a festa com Ele.
Como?
O melhor meio é uma boa Confissão, participar da Missa do Galo e fazer uma bela Comunhão.
A Confissão não é tanto referir uma lista de pecados e esperar a absolvição...
Mais do que tudo, é o encontro com Jesus misericordioso que nos purifica de todo mal, restabelece nossa amizade com Deus e enche nosso coração de luz, alegria e paz.
A Missa do Galo é a missa da noite de Natal: pode ser cedo ou tarde, não faz diferença. O que faz diferença é a fé, a devoção, a participação que se procura ter.
A Comunhão é acolher o próprio Jesus em nós, como Maria o acolheu em seu seio.
Não há união mais intensa com Deus do que esta.
Faça isso: confesse-se, participe da missa, comungue.
O fato é que Natal sem Jesus não tem graça.
Tenha um FELIZ NATAL, COM JESUS!
É o que lhe desejo de coração.
*****
Próxima postagem: 29 de dezembro, terça-feira.

sábado, 19 de dezembro de 2009

DOM BOSCO

No dia 18 de dezembro de 2009, os Salesianos de Dom Bosco comemoraram 150 anos da fundação da sua Congregação. Nessa data, todos os membros da Inspetoria (Província) Salesiana de São Paulo reuniram-se em Campinas, no Liceu Nossa Senhora Auxiliadora, para uma festiva celebração. Um acontecimento feliz marcou o dia de festa: a presença da urna com as relíquias de Dom Bosco. Na celebração eucarística, durante a qual os Salesianas renovaram seus compromissos com o projeto apostólico de Dom Bosco, após o Evangelho, coube-me pronunciar a homilia que, a pedido de muitas pessoas, publico neste blog. Aqui está:



DOM BOSCO, bem-vindo!
Há quanto tempo esperávamos que o Sr. viesse ao Brasil, que viesse visitar a nossa Inspetoria!
Quando da primeira expedição missionária para a Patagônia, o Sr. disse aos salesianos que estavam de partida que os acompanharia, e quis se fotografado entregando ao P. Cagliero o livrinho das Constituições.
Sim, o conteúdo daquele livrinho, ainda hoje, é seu coração de Pai e Mestre da juventude.
Onde aquele livrinho é posto em prática, o Sr. está presente, vivo e agindo em favor dos jovens.
Hoje, porém, sua presença é diferente e nós estamos repletos de alegria por tê-lo entre nós.
O Sr. está nos reconhecendo?
No dia 18 de dezembro de 1859, quando o Sr. se reuniu com o primeiro grupinho de salesianos, nós também estávamos lá, temos certeza de que o Sr. nos viu, conheceu, sorriu para nós...
Sim, como a flor e o fruto estão na semente, assim todos nós lá estávamos naquela saleta humilde “delle camerete”, ajoelhados em torno do Sr., diante do crucifixo, quando os seus primeiros colaboradores fizeram seus votos e assumiram o nome de “salesianos”.
Precisamente hoje, passados 150 anos desde aquele dia, finalmente o Sr. veio até nós, e nós estamos sumamente felizes, o acolhemos como nosso Pai, nosso Fundador, nosso Mestre, nosso Guia, nossa Inspiração.
Querido Dom Bosco, uma vez, o Sr. teve um sonho famoso, conhecido como “o sonho de Pequim”.
Uma jovem pastora mandou que o Sr. traçasse uma linha desde Santiago do Chile até Pequim.
Olhando ao longe e contemplando o futuro, o Sr. viu uma multidão de jovens, e entre eles grande número de salesianos, dos quais o Sr. só conheceu os das primeiras fileiras, mas depois havia muitos e muitos outros que lhe eram desconhecidos.
Pois bem, nós também estávamos entre aqueles salesianos.
Tanto é verdade que a linha traçada pelo Sr. passa por São Paulo, São José dos Campos, Campos do Jordão, Pindamonhangava, Lorena, Cruzeiro, Lavrinhas, Rezende, Rio de Janeiro, Niterói..., depois passa por Angola, por outros países da África e chega Pequim.
Tudo isso o Sr. viu, e a todos nós o Sr. amou com antecedência.
Obrigado, Dom Bosco, por nos ter acolhido entre seus filhos, por nos ter amado tão extremadamente, por nos ter associado à sua missão, por nos ter infundido seu espírito, por ter dado a vida por nós.
Quando o Sr. estava no leito de morte, disse aos salesianos que o rodeavam: “Digam aos meus jovens que os espero a todos no paraíso”.
Só os jovens, Dom Bosco?
E nós, não?
Sim, antes, em outra ocasião, o Sr. afirmou que quem se tornasse salesiano teria a própria salvação garantida, inclusive a dos familiares, até a quarta geração.
Lembra disso?
Sem a presunção de salvar-nos sem merecer, como somos felizes por ter um Pai que nos ama tanto a ponto de querer ter junto de si no paraíso, para sempre, todos os jovens das nossas obras e todos os salesianos.
Por isso, Dom Bosco, hoje, em primeiro lugar, estamos aqui para lhe agradecer.
Quanto lhe devemos!
O que nós seríamos sem o Sr.?
Mesmo do ponto de vista puramente humano, o Sr. sabe donde viemos: a maioria de nós, é gente simples, humilde e até pobre.
Quem foi que nos acolheu, educou, instruiu?
Quem foi que nos proporcionou formação humana, cristã, salesiana, sacerdotal?
Quem foi que nos ofereceu oportunidades que nunca teríamos tido na vida, de crescer, aprender, desenvolver os próprios dons, tornar-nos “alguém”?
Quem foi que nos tornou pessoas significativas para os jovens, para o povo, a sociedade, a pátria, a Igreja, o mundo?
Quem foi?
Foi aquele menino nascido nos Becchi, educado por Mamãe Margarida.
Aquele menino estudioso, sonhador que, aos nove anos, anteviu todo o trabalho de salvação dos jovens, aos quais dedicou, “até o último respiro”, a própria vida e que, para isso, precisou de colaboradores, precisou de nós, salesianos de todos os tempos e lugares.
É ao Sr. que devemos praticamente tudo e, por isso, aqui estamos alegres, contentes, unidos num só coração e numa só alma, para dizer-lhe: obrigado, Dom Bosco, muito, muito obrigado!
Não só isso.
Hoje, diante do Sr., queremos renovar nosso compromisso como seus filhos, como membros da Congregação que o Sr. fundou com tantos sacrifícios.

Como no dia 18 de dezembro de 1859, hoje estamos reunidos em seu redor e, ajoelhados na alma e no coração, perante Jesus crucificado e ressuscitado, sob o olhar materno de Maria Auxiliadora, renovamos nossos votos de obediência, pobreza e castidade, nossa vontade de viver e trabalhar juntos na comunidade salesiana; renovamos nossa entrega à missão em favor dos jovens pobres e abandonados, nosso compromisso com o espírito salesiano e com o método preventivo, nossa comunhão com a família salesiana.
Enfim, queremos dizer-lhe, Dom Bosco, que nós lhe pertencemos e que é junto com o Sr. que queremos viver e trabalhar pela juventude até o fim da nossa vida.
Dom Bosco, pedimos que acolha bondosamente nossos compromissos, que renove seu amor por nós, que nos inspire em nossos trabalhos para que sejamos, na Igreja e no mundo, fiéis continuadores do seu projeto apostólico.
Querido Dom Bosco, temos também que pedir perdão. Quantas vezes fomos filhos ingratos, infiéis aos nossos compromissos, omissos em nossa missão, descuidados da vida de comunidade e da vida de oração...
Quantas vezes nossa consciência de consagrados perdeu sua consistência, renegamos ser seus filhos e caminhamos pelos caminhos do individualismo, do egoísmo, dos próprios interesses, dos projetos individuais, da acomodação, da fuga perante os compromissos e o trabalho.
Tudo isso o Sr. viu e conhece, Dom Bosco, e de tudo isso queremos pedir perdão.
Seu coração de Pai, tenho certeza, saberá compreender e perdoar nossas faltas que, hoje, em sua presença, queremos confessar e delas nos redimir por meio de um sério empenho, para sermos, vivermos e trabalharmos mais e melhor como salesianos.
Finalmente, Dom Bosco, queremos dizer-lhe que precisamos muito de sua ajuda.
Os tempos são difíceis, nós somos poucos e nem sempre estamos à altura da missão que devemos cumprir.
Venha em nossa ajuda, Dom Bosco.
Infunda em nós o seu espírito, comunique-nos o ardor pela missão, confirme nosso empenho em sermos verdadeiros religiosos, abra nosso coração para sermos acolhedores dos jovens e seus educadores de acordo com o sistema preventivo.
Ilumine-nos para vermos com clareza e sabermos com precisão como agir na seleção e preparação dos candidatos à vida salesiana, como formar os jovens salesianos, como mantermo-nos unidos em nossas comunidades, como incentivar o espírito de oração, o espírito de família, o espírito religioso.
Confirme em nós o amor à Eucaristia, a Nossa Senhora Auxiliadora, ao Papa e à Igreja.
Abra a nossa inteligência para compreender os novos tempos, para sermos sinais e portadores do amor de Deus aos jovens, aqui e agora, para conservar na Igreja o seu espírito e para levar ao mundo a sua mensagem de Pai e Mestre da juventude.
Dom Bosco, queremos sempre caminhar com o Sr.
Assim como o Sr. veio a nós, hoje nós queremos juntar-nos ao Sr. para sermos sempre seus filhos e seus colaboradores.
Em nosso coração trazemos aqui os nossos jovens, razão de ser da nossa consagração como salesianos, para que o Sr. estenda sobre eles suas mãos benditas e os abençoe.
Também trazemos em nosso coração toda a família salesiana, a fim de que o Sr. nela infunda coragem e entusiasmo para trabalharmos juntos pela salvação da juventude.
Dom Bosco, o Sr. vai partir, mas temos certeza de que seu coração vai ficar conosco.
Obrigado pela sua visita!
Obrigado por tudo, Dom Bosco, e nos abençoe!
Amém.

domingo, 13 de dezembro de 2009

PADRES

Ao longo de meus anos de bispo tive a felicidade de conferir o sacramento da Ordem a muitos diáconos e padres: fazendo as contas, são 75 padres ordenados por mim até agora.
Cada vez que tenho a alegria de impor as mãos a um padre novo, sinto no coração um não sei quê feito de emoção, mistério e saudade, que se prolonga por vários dias.

“Só no céu compreenderemos o que é o sacerdote”, dizia S. João Maria Vianney, o Cura d’Ars, patrono dos párocos (e de todos os padres).
Sim, ordenar um padre é como chegar pertinho do céu: sente-se a alegria, a felicidade dos eleitos, participa-se da festa dos anjos e dos santos.
Quando o Filho de Deus, se tornou Homem no seio de Maria (foi então que se tornou Sumo e Eterno Sacerdote), lá estava um arcanjo, Gabriel, testemunha silenciosa da alegria pela chegada do Messias.
Quando, porém, Jesus nasceu em Belém, o Evangelho diz que pairava no ar uma multidão de anjos que cantavam “Glória a Deus nas alturas”, pois havia grande festa no céu.
Pergunto se não haveria festa no céu também quando Jesus se torna presente no meio de nós num padre novo?
Sem darmos peso demasiado às palavras, não é isso uma espécie de “nova encarnação” de Jesus?
Como, pois, não sentir no ar o perfume, as melodias, os cânticos dessa festa celestial?
E não é só o bispo ordenante que se dá conta de que algo divino aconteceu no coração do novo consagrado.
Todos sentem essa realidade: em primeiro lugar, o padre novo; depois, seus familiares, parentes, amigos, os convidados, os jovens, particularmente os jovens...
Terminada a ordenação, tem-se a impressão de acordar de um sonho. Todos querem abraçar o padre novo, beijar-lhe as mãos ainda perfumadas pelo óleo da unção sagrada.
Realmente, volta-se para casa com saudades do céu.
A festa fica na memória, no coração, muitas vezes até o fim da vida.
Realmente, só no céu entenderemos o que é o sacerdote.
Nós, padres, olhando para nós mesmos, não conseguimos nos entender.
Somos um mistério, em primeiro lugar, para nós mesmos.
Por isso, como padre, antes de tudo, eu devo fazer um ato de fé em mim mesmo: pela imposição das mãos e da oração consecratória do bispo, eu me tornei uma pessoa diferente.
Como posso ter a coragem de dizer: “eu te absolvo dos teus pecados”, “isto é meu corpo... isto é meu sangue”? Donde me vem tal poder?
Ora, se eu creio que os pecados, por meio de mim, foram realmente perdoados; que o pão e o vinho, pelas minhas palavras, de fato se tornaram o Corpo e o Sangue de Jesus, também devo crer que eu sou uma pessoa diferente.
Isto exige de mim um verdadeiro ato de fé!
Por isso, ao longo da vida, o padre necessita constantemente – eu diria, diariamente – de renovar sua consciência a respeito dessa diferença, não para se envaidecer, mas para não perder a dimensão divina de si mesmo.
Quando o padre perde essa consciência, também começa a duvidar de sua vocação e, muitas vezes, acaba afundando...
Não sem motivo S. Paulo recomendava a Timóteo: “Eu te exorto a reavivar a chama do dom de Deus que recebeste pela imposição das minhas mãos” (2 Timóteo 1, 6).
A consciência sacerdotal também se deteriora quando o padre – quem sabe, até levado por boas intenções –, se identifica com o mundo que ele deve salvar.
Sabemos que “o mundo está posto no maligno” (João 5, 19); e, como disse Jesus, referindo-se a “seus padres”, os apóstolos: “Eles estão no mundo, mas não são do mundo” (João 17, 16).
Proximidade com as pessoas não significa assumir comportamentos que o padre, como representante de Jesus, deveria corrigir em vez de adotar: “Tudo é bom, mas nem tudo me convém”, ensina S. Paulo (1 Coríntios 6, 12).
Realmente, no padre, tudo depende de sua consciência sacerdotal.
Dom Bosco dizia de si mesmo, que era padre, sempre padre: padre no altar, padre na rua, padre com seus meninos pobres, padre com os ministros do governo, sempre padre. Nem por isso deixava de ser popularíssimo!
Mas, voltemos ao mistério que somos nós.
Olhando para dentro de nós, padres, às vezes nos sentimos indignos de tamanho dom celestial.
Quem sou eu, afinal, para merecer tanta confiança da parte do Senhor?
O que Ele viu em mim para me chamar, quando o mundo está repleto de santos?
Mais ainda indignos nos sentimos, se considerarmos as limitações do exercício do nosso ministério, as lacunas, os passos em falso, as omissões...
Só Deus conhece a história verdadeira de cada padre.
Apesar disso, o dom de Deus é irrevogável; Deus não se arrepende de suas graças.
E faz mais: vai costurando nossos pedaços de vida com o fio de ouro de sua misericórdia.
Ele recompõe nossa vida, desde que, como Pedro no pretório, veja brilhar em nossos olhos as lágrimas do arrependimento.
Devemos ser agradecidos por esse fio de ouro que nos unifica.
Mas, qual será a melhor forma de sermos agradecidos?
Sem dúvida, celebrar a Eucaristia, que significa precisamente ação de graças.
Aliás, em última análise, como diz o ritual da ordenação, o padre existe em função da Eucaristia.
Tudo o que na Igreja se faz para evangelizar conduz ao altar do Senhor, porque é ali que se realiza o encontro entre Deus e os seres humanos, é ali que se realiza em profundidade a Igreja, a comunhão de todos com Jesus e dos batizados entre si.
De fato, a Eucaristia sintetiza toda a obra de Deus pela salvação do mundo e toda a redenção de Jesus.
Como diz muito bem o salmo: “O que retribuirei ao Senhor por todo o bem que Ele me fez? Erguerei o cálice do Senhor, invocando o seu Nome” (Salmo 16, 11-12).
É isso mesmo.
Não há melhor meio para agradecer ao Senhor a vocação sacerdotal do que a Eucaristia – celebrada diariamente, como tanto recomenda a Igreja –, celebrada conscientemente, santamente.
Uma vez li uma frase que me deixou forte impressão: “Se você, padre, vacila, agarre-se ao altar da Missa e terá forças para não cair”.
É verdade, nós, padres, existimos para a Eucaristia e é na Eucaristia que está toda a nossa força.
Você que é padre, neste ANO SACERDOTAL diga com frequência: Obrigado, Senhor, pelo meu sacerdócio! E procure ser digno de dele!

Próxima postagem: dia 19/12, sábado.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

LEIGOS E LEIGAS

Você conhece os Relatos de um Peregrino Russo? É um livro admirável, de autor desconhecido do século 19.
Um desses livros que a gente lê de um só fôlego e que tem sempre vontade de reler.
No Brasil foi publicado pos mais de uma editora católica.
O texto completo abrange sete relatos e é conhecido no mundo inteiro sob o título de O Peregrino Russo.
O livro começa assim: “Pela graça de Deus, sou homem e cristão; pelas ações, grande pecador; por estado, peregrino sem abrigo, da mais baixa condição, sempre vagando ao léu da sorte. De meu, tenho às costas uma sacola de pão seco, no meu casaco a santa Bíblia, e eis tudo”.
Admirável síntese!
O antigo Catecismo da Primeira Comunhão começava mais ou menos da mesma maneira. Pergunta – És cristão?
Resposta – Sim, sou cristão pela graça de Deus.
Como você vê, tanto o Peregrino Russo quanto o Catecismo insistem em que é por graça de Deus que você é cristão.
Que graça é esta?
A graça do batismo, expressão da fé que, por sua vez, é graça de Deus.
A graça do batismo me faz cristão, discípulo/a de Cristo, membro do Povo de Deus.
Povo, em grego, se diz laós; daí vem a palavra leigo.
Precisamente esta é a melhor definição de leigo: a pessoa que, pelo batismo, pertence ao Povo de Deus, à Igreja.
O Povo de Deus não é um agregado caótico, mas uma comunidade organizada (o que é próprio da natureza das coisas deste mundo).
Eis a razão pela qual, nele, há pastores, ou seja, pessoas que têm responsabilidades especiais na comunidade.
Essas responsabilidades, especificamente, por disposição do próprio Cristo, consistem em anunciar a Palavra de Deus, santificar os fiéis por meio dos sacramentos e pastorear (governar) o rebanho de Jesus.
Entre os pastores há certa diversidade, aliás, necessária para atender ao bem de todo o conjunto: há bispos, presbíteros (padres) e diáconos; à frente de todo o povo de Deus, está o papa, bispo de Roma.
A esses pastores, com o tempo, deu-se o nome de clérigos, para diferenciá-los dos leigos.
A palavra clérigo vem do grego kleros e significa sorte, herança (herança por sorte).
Quando foi feita, por sortes, a distribuição da Terra Prometida entre as 12 tribos de Israel, Josué disse: “Não haverá parte alguma para os levitas, entre vós, porque a sua herança é o sacerdócio do Senhor” (Josué 18,7).
De fato, a tribo de Levi tinha como missão unicamente o serviço do culto no Templo e devia ser mantida pelo dízimo dos outros membros do povo escolhido.
Eis então o sentido de clérigo: aquele que se dedica unicamente ao serviço do Senhor.
Essa qualificação lhe é conferida pelo sacramento da Ordem.
Na organização do Povo de Deus, aos clérigos são equiparados os religiosos/as, isto é, pessoas consagradas a Deus pelos votos de pobreza, castidade e obediência, com aprovação da Igreja.
Dessa forma, o Povo de Deus se compõe de leigos e clérigos (religiosos/as).
Os leigos são a maioria absoluta.
O mais importante, porém, é que todos (leigos e clérigos) são cristãos pela graça de Deus.
Isso, porém, não anula o fato de haver diversidade de tarefas para leigos e para clérigos.
Na realidade, pelo batismo, todo leigo é constituído sacerdote, profeta e pastor (rei): é o que se costuma chamar de sacerdócio dos fiéis.
Realmente, pela união com o Senhor Jesus (Cabeça do Corpo Místico), todo o batizado/a participa de sua missão de sacerdote, profeta e rei.
Participa a seu modo, como diz o Concílio Vaticano II, diversamente da maneira de participar dos que receberam o sacramento da Ordem.
O que caracteriza especificamente os leigos/as é sua índole secular (o mundo das realidades temporais), ao passo que aos clérigos cabe o sagrado ministério.
Diz o Concílio: “É específico dos leigos, por sua própria vocação, procurar o Reino de Deus exercendo funções temporais e ordenando-as segundo Deus. Vivem no século, isto é, em todos e em cada um dos ofícios e trabalhos do mundo. Vivem nas condições ordinárias da vida familiar e social pelas quais sua existência é como que tecida. Lá são chamados por Deus para que, exercendo seu próprio ofício, guiados pelo espírito evangélico, a modo de fermento, de dentro, contribuam para a santificação do mundo” (Lumen Gentium 31).
É importante observar que, se há diversidade de tarefas específicas para leigos e clérigos, a missão da Igreja é única, e todos colaboram na mesma missão.
O Concílio enumera, em particular, os objetivos a serem visados com a participação dos leigos: a evangelização e santificação das pessoas, a reforma da ordem temporal e a ação caritativa, considerada o segredo do apostolado cristão.
Os campos do apostolado leigo apontados pelo Concílio são as comunidades da Igreja, a família, o ambiente social e o âmbito nacional e internacional.
As modalidades de colaboração são sem número: todas exigem uma sadia espiritualidade cristã.
Graças a Deus, a partir do Concílio Vaticano II (anos 60), cresceu enormemente a consciência da Igreja a respeito dos leigos, a consciência dos próprios leigos/as e sua participação na missão de transformar o mundo.
Há um grande esforço e entusiasmo na participação da ação pastoral da Igreja: pessoas, grupos, pastorais, associações, movimentos...
Isto mudou muito o conceito de Igreja, modificou substancialmente a maneira de trabalhar do clero, embora haja ainda um longo caminho a percorrer.
Não se deve esquecer, porém, que o lugar mais imediato onde a Igreja espera a colaboração dos leigos/as é a família, a sociedade em geral, o mundo do trabalho, a política, a cultura, enfim, as chamadas realidades terrenas.
Num documento de João Paulo II sobre os leigos/as (Christifideles Laici), ele chama a atenção para a importância de os leigos darem prioridade à transformação das realidades terrenas segundo o Evangelho, sem descuidar sua família e a própria profissionalização.
O certo, porém, é que, sendo a Igreja, em sua imensa maioria, composta de leigos/as, o mundo seria muito mais pagão sem eles, o Evangelho ficaria confinado a pequenos grupos e Jesus seria muito menos conhecido e seguido.
Destaque-se, em particular, a presença e ação das mulheres que, por natureza, parecem mais sensíveis a certas realidades evangélicas e eclesiais.
Sem elas, muitas famílias não seriam o que são, muitas comunidades não vibrariam como vibram, muitas pastorais, associações e movimentos não teriam o vigor que têm.
O fato é que Deus, que poderia salvar o mundo sozinho, resolveu precisar de todos nós: leigos/as, religiosos/as e clérigos.
Para todos e para cada um/a há um trabalho, pequeno ou grande, simples ou complexo, na vinha do Senhor.
Para todos e cada um/a haverá também um prêmio à espera de quem foi servo/a bom e fiel no muito e no pouco.
“Sim, sou cristão pela graça de Deus”. Que esta verdade se torne realidade em todos os dias da sua vida: isto quer dizer, como inculca o Documento de Aparecida, tornar-se cada dia discípulo missionário de Jesus. É o que Ele espera, seja lá o que você for na Igreja de Deus.
*****
Próxima postagem: dia 13/12, domingo

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

SER IGREJA

Quem desce de Campos do Jordão (SP), a cidade mais alta do Brasil (1.700 m), quando chega ao pé da montanha, olhando à direita, vê ao longe sobre um pequeno monte uma árvore solitária.
Alta, esbelta, abre sua copa para o céu, destaca-se no horizonte, já foi fotografada como um cartão postal..., mas está sozinha!
Humm, isso não é bom.
Veja o que, um dia, num lugar distante, aconteceu. Um homem plantou árvores na encosta de uma montanha. Eram plantinhas frágeis, mal podiam se manter de pé.
Uma delas olhou em redor e disse – Eu aqui no meio das outras? Quem vai olhar para mim, perdida no meio de tantas colegas, por sinal, todinhas iguais? Vou-me embora daqui. Vou “me plantar” no alto daquela outra montanha: lá todo mundo vai me ver!
E foi...
As árvores cresceram, a montanha se cobriu de verde, um espetáculo majestoso.
A árvore solitária também cresceu e se deleitava consigo mesma, dizendo: – Todo mundo olha para mim! Quem distingue “alguma” árvore no meio daquela floresta do outro lado da montanha?
E a árvore estava feliz em sua solidão...
Veio uma tempestade: vento, trovões, raios, chuva, a floresta baloiçava, se contorcia... mas, as árvores, uma se apoiando nas outras, todas ficaram de pé.
Passado a tempestade, a floresta inteira voltou-se para o outro lado da montanha.
As árvores, aflitas, se perguntavam: – O que será que aconteceu com nossa amiga solitária?
Lá estava ela: jazia no chão, raízes à vista, tronco partido, galhos quebrados, desfolhada.
A solidão a tinha matado!
Aprenda a lição: você não é cristão/a sozinho, discípulo/a solitário; você faz parte da “floresta” da Igreja, você é membro do Corpo Místico de Cristo, você ajuda a compor o Povo de Deus.
Nós, batizados, não somos cristãos cada um por si.
Somos cristãos porque, pelo batismo, fomos “enxertados” no Corpo de Cristo, agregados à comunidade de Jesus.
Não somos “ilhas”, não somos “piões” que giram em torno de si mesmos, não vivemos cada um dentro da “própria toca”.
Aos membros da nossa Igreja falta muito a consciência de “ser Igreja”, de trabalhar como Igreja, de rezar como Igreja, de viver como Igreja.
Mesmo vivendo cada um a sua vida, todo o batizado/a está solidariamente unido a Jesus e a todos os que, pelo batismo, estão unidos a Jesus.
Isto é o que se chama “comunhão dos santos”, como dizemos no Creio: “Creio na comunhão dos santos”; santos, aqui, são todos os batizados, os que estão unidos a Jesus.
Isto é impossível de ser deletado: de dia e de noite, dormindo ou acordados, comendo ou passeando, estudando ou trabalhando, sofrendo ou nos divertindo, estamos sempre “juntos”.
Como ensina S. Paulo: “Quer na vida, quer na morte, pertencemos ao Senhor” (Romanos 14,7).
Pode-se também dizer: “Quer na vida, quer na morte, pertenço ao Corpo de Cristo, ao Povo de Deus, à comunidade da Igreja.
Somos “floresta eclesial, crística”, não árvores solitárias!
Há muito individualismo na Igreja. Há muitas pessoas que se sentem cristãs por conta própria: vivem “sua” religião sem tomar consciência de que não estão sozinhas; fazem “sua” oração, “suas” promessas, “suas” romarias, acendem “sua” vela, buscam os “seus” sacramento, pedem “suas” graças... tudo individual, tudo individualista, nada comunitário, nada eclesial.
São árvores solitárias!
Sem dúvida, sou “uma” pessoa, sou “um” indivíduo, tenho “meu” relacionamento com Deus. Não esqueça, porém, que se não existissem as outras pessoas, os outros indivíduos, como é que você saberia que é pessoa, que é indivíduo? Os outros são como o espelho de cada um de nós: sem eles, nem saberíamos quem somos, nem seríamos o que somos.
Aprenda, pois, esta lição. Aprenda a ser Igreja, a viver como Igreja, a rezar como Igreja. Aprenda a dizer: “Pai, nosso... Venha a nós o vosso Reino... O pão nosso... Perdoai-nos as nossas ofensas... Não nos deixeis cair... Livrai-nos do mal”: tudo no plural!
Cada um de nós é plural! Fazemos parte da floresta. Não teime em ser árvore solitária: uma tempestade acabará com você!
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Próxima postagem: dia 7/12, segunda-feira